Tecnologia revoluciona tratamento da insuficiência cardíaca | PARAÍBA.com.br

 

Maior motivo de atendimento de pessoas com mais de 65 anos no Sistema Único de Saúde (SUS), com aproximadamente 300 mil internações anuais, a insuficiência cardíaca afeta mais de 260 mil brasileiros todos os anos, levando à morte cerca de 27 mil vítimas anualmente. E, com o envelhecimento da população, a tendência é o problema aumentar ainda mais. Estimativas apontam que de 5% a 10% dos idosos na faixa dos 65 a 79 anos vão desenvolver a síndrome. O assunto foi tema da última edição dos Encontros O GLOBO Saúde e Bem-estar de 2016, realizada na quarta-feira no Museu do Meio Ambiente, no Jardim Botânico, com apresentações dos médicos do Hospital Pró-Cardíaco Alexandre Siciliano, chefe da cirurgia cardíaca, e Marcelo Montera, coordenador clínico da insuficiência cardíaca do hospital.

— Pelo menos um em cada cinco adultos terá o coração cansado — resume o cardiologista Cláudio Domênico, coordenador do evento, que teve mediação da jornalista do GLOBO, Viviane Nogueira.

Estudos indicam que, depois que o paciente se torna sintomático, a mortalidade em dois anos é de cerca de 40%, e pode chegar a 80% nos homens e a 65% em mulheres nos seis anos seguintes. Para Montera, um dos entraves é que 50% dos pacientes não tomam os remédios prescritos.

— E não são pessoas saudáveis. São doentes, já com os sintomas, com o coração aumentado, falta de ar — diz.

Maria Emília da Silva Maciel sofre com a doença há 12 anos e segue à risca recomendações dos médicos – Leo Martins / Agência O Globo

Com perfil diferente da maioria, a dona de casa Maria Emília da Silva Maciel, de 70 anos, diagnosticada com insuficiência cardíaca após sofrer um infarto em 2004, convive há 12 anos com o problema sem grandes sustos.

— Faço tudo que os médicos mandam e tomo os remédios na hora certa, mesmo sendo mais de dez — conta.

O paciente Walter MIrandela mostra as baterias e central de controle de seu coração artificial: melhoria da qualidade de vida – Ana Branco / Agência O Globo

Avanços tecnológicos recentes podem ajudar a mudar o quadro de quem, mesmo com remédios, não consegue ter uma vida plena. Conhecidos como dispositivos de assistência ventricular (VAD, na sigla em inglês), esses “corações artificiais” têm revolucionado o tratamento da insuficiência cardíaca, antes restrito a abordagens clínicas, cirurgias, implantação de aparelhos como marcapasso e, em última instância, transplantes de coração. Já relativamente comuns na Europa e nos EUA, onde aproximadamente 20 mil deles são implantados anualmente, estes dispositivos começam a chegar no Brasil, devolvendo a qualidade de vida e aumentando a esperança de sobrevida de pacientes como o administrador Walter Mirandela, de 69 anos.

Afetado por uma série de problemas cardiovasculares, como hipertensão e infartos, Mirandela se tornou mais uma vítima da insuficiência cardíaca, que o levava a hospitalizações frequentes. Há quatro anos, no entanto, o administrador foi o primeiro paciente a receber um VAD em programa criado no hospital Pró-Cardíaco pelo cirurgião Alexandre Siciliano, e de lá para cá não precisou passar por mais nenhuma internação, além de retomar hábitos como caminhadas no Aterro do Flamengo.

— O aparelho permitiu o resgate de praticamente todos comportamentos e atividades que eu tinha antes da insuficiência — conta Mirandela, que também deu seu depoimento durante a última edição dos Encontros. — Agora posso fazer quase tudo, com qualidade de vida muito boa.

Custos podem ultrapassar R$ 500 mil

Segundo Mirandela, a melhora foi tão grande que ele chegou a sair da fila do transplante de coração, repassando para outro paciente um órgão que poderia ser seu. Mas a alternativa não foi barata. Na época que fez o implante, ele teve que obter autorização especial da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para importar o equipamento, que ainda não havia sido homologado pelo órgão, pelo qual desembolsou US$ 110 mil (cerca de R$ 360 mil atualmente). Com os custos da cirurgia, honorários médicos e acompanhamento necessário o preço do tratamento ultrapassa R$ 500 mil.

— Mas com o uso em larga escala a tendência é os custos caírem — aposta Siciliano. — Isto porque o que parece uma novidade para nós, já não é fora do Brasil. Estes dispositivos estão em uso há mais de 15 anos e se tornaram uma opção importante de tratamento.

Transplantes não são mais o único destino final ideal para pacientes

O advento dos dispositivos de assistência ventricular também significou o surgimento de uma alternativa aos transplantes de coração, ainda considerados o “padrão ouro” para o tratamento da insuficiência cardíaca. E eles ganham ainda mais importância diante da notória dificuldade em conseguir os órgãos, destaca o cirurgião Alexandre Siciliano.

— Nos EUA e na Europa, estes aparelhos estão sendo usados por milhares de pessoas que por alguma razão não são candidatas a transplantes ou não têm órgãos disponíveis — diz, lembrando que tanto nos EUA quanto na Europa o número de transplantes de coração atingiu um platô, em pouco mais de dois mil ao ano. — Mas o número de doentes continua a aumentar.

Desta forma, Siciliano também espera que num prazo de dez a 20 anos estes dispositivos também já sejam muito comuns no Brasil, podendo inclusive estar disponíveis pelo SUS, já que eles permitem uma economia dos custos das muitas reinternações de pacientes com insuficiência cardíaca. Além disso, ele aponta que o uso dos dispositivos dá um “descanso” necessário ao coração, o que faz com que em 5% dos casos o órgão se recupere e a insuficiência desapareça.

O Globo

Fonte: Tecnologia revoluciona tratamento da insuficiência cardíaca | PARAÍBA.com.br

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